A verdade é que desde o início de Junho, período de alto estímulo intelectual devido a novas leituras, que um conceito não me sai da cabeça (a tal, cansada, e a clamar por férias): o excedente cognitivo!
 
O mesmo soará melhor na língua de Shakespeare – Cognitive Surplus, ou C+ como o denominarei – e, certamente fará mais sentido quando explicado por Clay Shirky, o tal causador da referida adrenalina intelectual. Mas tentarei expôr o meu argumento com a paixão que o cansaço me permite.
 
A história pode ser contada em poucas linhas: a partir da Segunda Guerra Mundial, com a esperança de vida a aumentar e as condições de vida a melhorarem, o comum dos mortais passou a ter tempo livre (o tal C+), tempo esse gasto infindavelmente a acumular horas de televisão visionadas. Até que a explosão do acesso à Internet e as novas plataformas Web ditas sociais (os tais social media) amplificaram a nossa voz e as nossas iniciativas a uma escala, agora sim, verdadeiramente global. E de repente o potencial do nosso excedente cognitivo passou a ter um valor substancialmente mais importante!
 
A verdade é esta: somos livres para usarmos o nosso C+ como bem entendermos (dentro dos limites legais, aconselharia eu). Mas para que usamos verdadeiramente esta dádiva tecnológica e sociológica de um mundo em rede suportado pela grande Rede? O que relata a nossa voz colectiva?
 
Se por um lado temos exemplos de cidadãos anónimos a gerarem movimentos colectivos para derrubar regimes ditatoriais (tempos fantásticos estes que vivemos!), por outro lado vemos que as acções mais “caseiras” parecem preferir amplificar declarações cómicas de antigos futebolistas envolvendo aviões fretados e habitantes do país da Grande Muralha ou, mais recentemente, estranhas criaturas cuja amígdala parece ter sido afectada por algum tipo de acidente e cujo medo não lhes assiste.
 
Será uma decisão consciente a de preferir espalhar o humor (mais ou menos interessante) em vez de usar o tempo (o tal livre) e o espaço (o das plataformas e redes sociais) para, por exemplo, exercer o direito de cidadania, contribuir para a geração de novo conhecimento ou estreitar laços com o Mundo?
 
Ou será apenas que ainda não nos demos conta do poder que temos na ponta dos dedos – o da Internet livre e neutra (assim continue!), o da capacidade de computação cada vez mais impressionante, o da ubiquidade de acesso e consequente ligação e, em última análise, o poder do nosso C+ em prol de algo maior? Será que nos limitamos a perpetuar os comportamentos decorrentes da banalização do email, essa época fértil em cadeias de sorte (ou azar) e promessas de aflitos herdeiros de ricas fortunas africanas a circularem de modo virulento?
 
A resposta não a sei. Sei apenas que na verdade vos menti e não quero que esqueçam o G+ (Google Plus). Será, potencialmente, mais um instrumento na conversa e colaboração colectiva que fará avançar o Mundo! Digo potencialmente, sim. Assim o queiramos utilizar…
 
Nota: a autora deste post não adoptou ainda o novo acordo ortográfico
 
Imagem: MyTudut