Diogo Mónica | Um português na Square
Como tantos outros jovens engenheiros, sempre tive o sonho de trabalhar numa startup no Silicon Valley. A ideia de estar no sítio onde tudo acontece, no local onde há a maior mistura de talento e investidores do mundo, rodeado por lendas da comunidade tecnológica, era praticamente irresistível.
Depois de um processo de candidatura moroso e desafiante, fui convidado a vir trabalhar para a Square como Security Engineer. O processo de recrutamento foi surpreendentemente diferente daquilo que se faz em Portugal, tanto pelo elevado número de entrevistas, como pela dificuldade das perguntas técnicas.
Um dos principais motivos que me trouxeram à Square foi a promessa de um trabalho desafiante, numa empresa ainda relativamente pequena, com um produto/ideia muito bem conseguido, e no qual acreditei desde o inicio. Três meses depois de chegar a São Francisco, sei que não podia ter feito uma escolha mais acertada.
Quando cheguei à Square éramos cerca de 80 pessoas, e tínhamos acabado de atingir a meta do milhão de dólares de transacções por dia (o principal produto da empresa destina-se a pagamentos automáticos). Três meses depois, somos mais de 140, mudámos para um escritório três vezes maior, estamos a processar mais de 3 milhões de dólares por dia, e acabámos de receber um investimento de 100 milhões de dólares.
Há toda uma série de regalias (benefits) que a Square dá aos seus funcionários, para encorajar um ambiente mais produtivo e gratificante. Temos, por exemplo, pequeno-almoço, almoço e jantar, todos os dias da semana (incluindo fins-de-semana); existem na empresa frigoríficos enormes, repletos dos mais variados tipos de bebida e comida, gratuita e disponível a qualquer hora; temos também um programa sempre bastante preenchido, envolvendo actividades para promoção do espírito de corpo: noites de cinema, jogos de dodgeball, idas a jogos de baseball, etc. Um outro detalhe interessante é o facto de nos pagarem o táxi para casa, se sairmos do escritório depois das 10 (a mensagem deste mecanismo é pouco subtil, mas ir de táxi sempre é mais agradável do que ir a pé).
Uma das coisas de que mais gosto aqui é, sem dúvida, a forma aberta, cooperativa, e de grande sentido de equipa, com que a empresa opera: todos os funcionários têm acesso aos dados / métricas / relatórios de qualquer um dos outros grupos dentro da empresa; todas as notas e apontamentos das reuniões são acessíveis a qualquer momento, o que faz com que haja uma grande transparência nas decisões tomadas, e um nível de segurança adicional, garantindo que a empresa é bem gerida. Além disso, temos um evento semanal, o Town Square, em que são apresentadas as métricas da semana, e para o qual podemos submeter anonimamente perguntas, para serem respondidas pelo nosso CEO, Jack Dorsey.
Relativamente a São Francisco, e meteorologia à parte, estou a adorar viver aqui. Um dos principais motivos que tornam esta cidade única, é o facto de ter uma concentração muito grande de pessoas a trabalhar em startups, ou em empresas de base tecnológica. Não há dia em que não conheça alguém que trabalhe para o Twitter, Foursquare, Google, Groupon, ou qualquer uma das centenas de empresas aqui sediadas que já pertencem ao imaginário de qualquer engenheiro que se preze. É interessante notar aqui o grau de partilha com que toda a gente discute aquilo em que está a trabalhar, quer sejam novos produtos/serviços, ou apenas soluções interessantes para desafios tecnológicos. Aparentemente, em S. Francisco, a sinergia é mais valorizada do que o secretismo.
Em resumo. Sinto que aqui estou a fazer aquilo que em Portugal lia nas notícias, por ter sido feito por outros. E esta sensação não tem preço.






